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terça-feira, 22 de março de 2011

A CRIANÇA MERECE SER LIVRE! Por Cris Akemi

Eu não tenho filhos, quero tê-los, mas financeiramente ainda não foi possível, porém, ao que parece, o fato de estudar constantemente como as crianças agem e reagem a determinadas situações, bem como ter vivência não me habilita a tecer opiniões sobre o que considero certo ou errado na relação entre o adulto e a criança, ou mais precisamente entre pais e filhos.  
Mesmo assim eu me estou me permitindo falar a esse respeito e minha primeira colocação sobre a educação de uma criança é a de que ela deve ser livre!!!!! Livre para experimentar o mundo, senti-lo como deveria e interagir com as coisas e pessoas.
Claramente quase todos os pais do mundo discordariam da minha opinião, isso aliado ao fato de que não tenho filhos tornaria mais intensa ainda a minha burrice em acreditar em algo tão quimérico quanto ensurdecedor. De fato, posso ser idealista e tola, mas ainda assim creio na liberdade das crianças, como de todos os outros seres, mas é óbvio que liberdade é um conceito discutível. 
Na sociedade atual a liberdade significa fazer o que se quer a hora que se quer indiscriminadamente,  conceito minimalista que oculta a presença da consciência, da ética e da própria necessidade de convívio social em relação as ações, aliás como geralmente são consideradas as questões existenciais presentes em qualquer homem que exercite seu intelecto, mesmo que de forma inconsciente.
A questão é, como há uma crescente universalização do individualismo, processo no qual esse conceito se justifica em detrimento da busca de maior compreensão em relação ao comportamento alheio e do altruísmo, a consequência é que nossas crianças são apresentadas a esse tipo de mundo, sendo ele aceitável ou não, o que também é outro conceito discutível. Até concordo que existe uma linha muito tênue entre o cuidado e a privação. Sendo assim é perfeitamente aceitável que pais e educadores sejam super-protetores com suas crianças, pois é claro que seu nível de percepção e de responsabilidade com seu próprio corpo é diferente dos adultos, e isso torna necessário uma orientação constante e um zelo que funciona como mediação entre a criança e o mundo.
O que ocorre é que se ela não obter a liberdade necessária seu desenvolvimento pode e será prejudicado de alguma forma. Porém, bem como a discussão sobre a lei que não permite as palmadas e nem as humilhações em público, o nível de danos é mesmo muito difícil de ser analisado e percebido pelas pessoas. Pensem nisso! Parte da relevância dessa discussão está relacionada justamente com o tipo de mundo que estamos construindo e que deixaremos de herança para elas.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A INTERFERÊNCIA DA ESCOLA NA INFÂNCIA

Por Cris Akemi, Maria Vergínia Alves Fragoso,   Rosangela Silva e Vanessa Novi


DISCIPLINA E CONTROLE


            As idéias iluministas embasadas na liberdade estruturada na ciência e não mais na religião, consolidaram a sociedade capitalista no século XVIII; e ao desenvolver um grande número de instituições de assistência e proteção aos cidadãos no intuito administrativo, em um modelo de construção que possibilitou identificar a origem das pessoas, as doenças, as necessidades; criou também uma forma velada de implantar mecanismos de controle.
            Com a invenção do relógio, o tempo passa a ter uma importância que altera o cotidiano do indivíduo, possibilitando o controle do espaço e do tempo pelo Estado.
            Segundo Foucalt (1975, p. 117), que analisou a disciplina historicamente, em seus aspectos físicos e psicológicos, existe uma grande relevância, do ponto de vista social, nas relações de poder, estabelecidas nos espaços fechados.
            A princípio houve a necessidade de construir prédios com estruturas divididas em salas, com acessos dispostos conforme a necessidade da instituição: hospitais, igrejas, escolas; todas muito parecidas. Nesses ambientes, até hoje, existem uma infinidade de normas, regras e controles disciplinares, que compreendem no processo coercitivo do indivíduo. Essa disciplina é imposta aos soldados, nos quartéis, e aos alunos nas escolas, de maneira que seja aceita voluntariamente. Há coerção na exigência de posturas, e pela manipulação dos corpos se controla a mente ou vice e versa, e essa manipulação nem sempre é percebida. Sufocando a iniciativa e a individualidade, moldam-se as condutas, disciplinam-se os comportamentos e projeta-se aquilo que se deve pensar.
            A análise de Foucalt apresenta como as instituições mantêm um sistema, de maneira que seja aceito pela maioria das pessoas, e quase sempre, sem que haja questionamentos. Revertendo essa disciplina para o meio social, ela existe por meios de caminhos invisíveis e ganha aparência de naturalidade.
            A partir disso, entende-se que a disciplina nas escolas visam suplantar a infância convencional, em benefício do sistema capitalista, e ao invés da criança ter o direito de brincar, se divertir e desenvolver autonomia conforme suas necessidades, a ela são impostas atividades nas quais a única necessidade implícita é a do sistema, que visa sua permanência e revitalização, e faz das instituições de ensino, atualmente, suas ferramentas de controle.

A INTERFERÊNCIA DA ESCOLA NA INFÂNCIA


Partindo do pensamento de Vygotsky (1997, p.56), o aprendizado possibilita o despertar de processos internos do individuo conjugados à sua relação com o ambiente sócio-cultural. Educação significa colocar o ser em contato com os sentidos que circulam sua cultura, e ao assimilá-los para sua sobrevivência, significa que não estará assimilando todas as informações com uma atitude passiva, ao contrário, é necessária a uma boa aprendizagem, uma atividade que seja consciente, participativa, e transformadora da realidade, interna e externa, do indivíduo; componente fundamental para o confronto de informações culturais, que possibilita o contínuo processo do desenvolvimento e da constituição do psiquismo.
Pode-se supor então, que a educação voltada para o mercado de trabalho é equivocada porque não atende aos anseios da criança, ignora o conceito de zona de desenvolvimento proximal apresentado pelo autor, que é justamente, a distância entre o nível de aprendizado já alcançado e aquele que pode ser construído com a ajuda de outrem, denominados respectivamente de nível de desenvolvimento real, e nível de desenvolvimento potencial. A escola que intervém, impondo as necessidades do sistema capitalista, deturpa a zona de desenvolvimento proximal, e conseqüentemente modifica o conceito cultural de infância, já que o indivíduo se constrói histórico-socialmente. 
            Ora, a criança não se interessa pelos conteúdos propostos, porque, naquele momento, além de não entender os motivos pelos quais os mesmos lhe estão sendo apresentados, ainda podem não estar preparados para assimilá-los. E mesmo quando assimilam tais conteúdos, é de maneira passiva, o que torna o aprendizado, nesse caso, questionável.
O processo de ensino aprendizagem baseado no sistema tradicional, ainda muito aplicado, faz uso de uma disciplina conservadora, à medida que condiciona a criança ao modelo do bom aluno, ou seja, aquele que assimila os conteúdos sem questioná-los, e o mesmo que, dentro da tendência capitalista, seria o adulto a atender melhor os anseios do mercado, por teoricamente, ser formado para produzir mais, e mais rápido. Porém, as instituições escolares não tradicionais e que tem como fundamento a formação crítica e construtivista, também se submetem, e aos seus alunos, tanto individualmente, quanto socialmente, ao processo que demanda adultos produtivos. Isso ocorre devido ao fato de ser o sistema determinante na vida do indivíduo.
Ao fazer a análise desses aspectos, nota-se que qualquer formação escolar, seja ela disciplinadora ou autonomista, ainda exerce poder coercitivo que provém da formatação social. As crianças, desde o ensino fundamental são disciplinadas e educadas com conteúdos dogmáticos e não para desenvolver conhecimento. A maioria das escolas tem projetos direcionados para o ensino tecnicista e não para o desenvolvimento intelectual do indivíduo, o que gera a alienação em massa, muito conveniente à manutenção da produção econômica do sistema atual.
            Portanto, a intenção não revela o verdadeiro propósito da educação existente dentro desse sistema e a conclusão a que se chega é que somente a modificação do mesmo, e mais além, sua revolução, é que pode resultar num sistema educacional mais coerente as demandas do ser e conseqüentemente a uma sociedade mais justa.
Seguindo os conceitos de Marx (2008, p.45) é possível vislumbrar a educação como instrumento revolucionário, quando esta deixar de ser ferramenta de legitimação do capitalismo, como atualmente o é, ou seja, ao invés do ensino alienante, não só a introdução de uma formação intelectual consciente como uma visão diferente a cerca da questão do trabalho é que originam a elaboração da sociedade igualitária. Há a necessidade de implantar um projeto político-pedagógico que possibilite aos alunos perceberem os problemas inerentes ao sistema, e a desmascararem a liberdade a que são induzidos, e que na realidade os aprisionam.
  

Resenha crítica do livro "Escola sem sala de aula" de Ricardo Semler/Gilberto Dimenstein/Antonio C.G. da Costa.

Por Cris  Akemi 


Aprender a aceitar, ensinar a reclamar e conhecer o não conhecer


    Pensando na escola sem sala de aula proposta no livro, alguns poréns se destacam, e angústias dos corpos docente e discente vislumbram ser sanadas, angústias essas que não tiveram vazão até hoje no modelo tradicional de ensino.
     Um dos aspectos mais importantes a ser comentado é o de que há que se presumir a formação de um ser humano completo e não a formação fragmentada almejada no processo educativo atual, no qual o indivíduo é olhado somente pelo âmbito racional, fato onde reside quase totalmente a falha desse modelo.
    Enquanto a razão é super valorizada pela escola, tanto a emoção, quanto os ímpetos corporais, e a dimensão espiritual, são negligenciados, além de que, totalmente banalizados. Todavia, essa não é uma filosofia exclusiva da instituição escolar, pois não está dissociada da sociedade capitalista, que tem raízes profundas no positivismo (teoria do conhecimento fragmentado, com base sólida somente nos apontamentos científicos).         
     Nesse sistema é perfeitamente compreensível que o indivíduo tenha seu conhecimento tecnicista que vai atender ao modo de produção em série, aliás, isso é necessário para que os poderes estabelecidos continuem vigentes, em detrimento ao direito de liberdade do sujeito.
     E liberdade é justamente o ponto determinante da escola sem sala de aula, não só como premissa, mas como objetivo final na formação, pois é livre aquele que articula bem mente/corpo, razão/emoção, de forma intensa e consciente, e que consegue estabelecer relações sociais sadias, que vão lhe proporcionar felicidade. E as relações da sociedade capitalista, refletidas no ambiente escolar atual não proporcionam nada disso, pelo contrário, estimulam a competitividade vã desde os primeiros anos, motivam a promoção individual e deturpam o conceito de coletivismo utilizando agrupamentos, que nada mais são que uma seleção natural induzida.
   E os resultados dessa triste realidade são gerações inteiras que se contentam em reclamar do governo, considerando que não tem responsabilidade política alguma, tamanha sua ignorância sobre a própria vida e condição humana, porque ao Estado não interessa que ele tenha consciência do que é agora, mas sim se vai se tornar um indivíduo produtivo, ao que ele é, não é atribuído valor algum, e ao invés de lhe ser reservado o direito de aprender a aprender, ensinar a ensinar e conhecer o conhecer, unicamente aprendem a aceitar, ensinam a reclamar e conhecem o não conhecer.
     Tal situação, não só cria, jovens parasitas e alienados, como também marginais, e esse é o quadro a ser revertido e que só pode esperar solução num novo sistema de ensino, pois há tempos vem tentando se regenerar e não consegue, mas também não dá se curva às novas propostas.
    O que se ouve muito, pelo senso comum, é que os jovens de hoje não tem jeito, pois são mal educados e não sabem respeitar os mais velhos, mas no fundo o que se espera não é respeito, e sim submissão. Afora o discurso bem articulado dos docentes ativistas, não se vê efetivamente nenhuma proposta que pretende ao invés de obter respeito, emaná-lo aos jovens como o faz a Lumiar.
     Os ativistas tem medo de desenvolver a autonomia dos jovens porque nem ao menos se apropriaram do conteúdo que estão lecionando e por isso evitam questionamentos, o que denota o quanto não tem amor ao seu ofício. Os pais por sua vez também não o querem, pois tem medo que em se abrindo o canal para seus anseios, o controle seja vulgarizado, e dadas as mudanças de comportamento sociais constantes não sabem lidar com isso.
     Há uma falsa impressão de que o controle deve estar nas mãos dos pais e professores e essa é uma concepção retrógrada, baseada numa estrutura de cunho religioso, educação na qual não havia diálogo entre o suposto detentor do saber: o professor, e o aluno, segundo a etimologia aquele que não tem a luz.
    E muito embora, em discurso, se pregue que a nova educação não se apóia nessas estruturas, e é construtivista, na prática as disciplinas ainda são igualmente divididas, os prédios tem a mesma separação de salas por séries, as avaliações os mesmos padrões e assim por diante, sendo que o que mais requer mudanças permanece intocável pois esse infundado da perda do controle existe por não considerarmos a criança e o jovem como aptos a atuar na sociedade e estabelecer juízo moral, o que é um equívoco.
    Eles não só atuam fortemente como muitas vezes seu juízo moral é mais puro porque é desprovido de preconceitos sociais e interesses político sociais, por exemplo.
    Todos os projetos apresentados no livro tem essa natureza de respeitar a criança como      cidadã, valorizando sua condição ao invés de tentar transpô-la o que é severamente positivo na construção de um futuro melhor.
   Não obstante, há também um aspecto facilitador na aplicação desse conceito de liberdade que é entender que o processo de ensino-aprendizagem não se dá unicamente na escola, pelo contrário, toda experiência é construída e reconstruída a partir da bagagem que o indivíduo traz consigo, e essa relação com o meio é importantíssima para que se estabeleça o desenvolvimento.
    A criança tem um processo específico de expressão, ao docente cabe compreender profundamente como ele se dá. Ao contrário do que se pode imaginar não é justo e nem correto estabelecer padrões de comportamento e de desenvolvimento porque existem especificidades que vão muito além deles, muito embora possam se apresentar de formas parecidas. Ou seja, as reações se mostram padronizadas, mas suas motivações são tão variadas, quanto seus próprios rostos.
   O mais importante é ver que em todos os momentos o cognitivo é afetado pelo emocional de forma intrínseca e o professor não deve tentar separar essas duas manifestações porque o aluno demonstra a necessidade de ser aceito e olhado pelas vias sensoriais para que seu pensamento lógico seja acionado.
   Concluindo, muito além das propostas serem boas, o mais fascinante é provarem ser possíveis, alimentando as esperanças de que o mundo ainda pode sorrir para nossas crianças como elas sorriem para ele.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Hoje não é domingo, mas não tem problema!!!

Por Cris Akemi


"Hoje é domingo
Pede cachimbo
Cachimbo é de barro
Bate no jarro
O jarro é de ouro
Bate no touro
O touro é valente
Bate na gente
A gente é fraco
Cai no buraco
Buraco é fundo
Acabou-se o mundo"



Essa parlenda é a que eu mais gostava quando era criança, mas com certeza não tinha a menor idéia do que queria dizer, talvez nem agora, de fato. A questão curiosa é que eu achava que existia um pé de cachimbo e não que o domingo pedia cachimbo, mas essa foi só a primeira das confusões que eu fiz com letra de música na minha ínfima existência.
Bem depois disso eu cantava em posição de protesto "Homem primata" dos Titãs, gritando "homem que mata", capitalismo selvagem, não que a minha versão também não tivesse lá a sua razão, mas...
O mais interessante pra mim, é como a gente traduz as coisas da forma que convém, ou mais apropriadamente, como resignificamos, aliás descobri que muitas pessoas acreditam no pé de cachimbo como eu.
Já adultos não nos deixamos levar de forma tão fácil, e perdemos demais com isso, não nos envolvemos com as coisas que estão a nossa volta e menos ainda com as pessoas. Muitos acreditam que a criança é um ser ingênuo, porém tenho que discordar, ingenuidade é o excesso de credulidade, a criança não acredita demasiadamente mas oferece a confiança necessária para descobrir se algo é verdadeiro ou não, bom ou não, está aberta, não tem bloqueios de níveis psíquicos ou sociais, nós já somos impuros, cheios de vícios e medos e não damos o benefício da dúvida, por vezes, nem a nós mesmos. 
Esse comportamento está diretamente ligado com o sistema econômico que nos obriga a sermos assim, pois se formos diferentes com certeza sairemos prejudicados. Obviamente, que é uma questão de conceito, se eu me corrompo para me adequar ao sistema, e dessa forma, mantenho minha integridade financeira, por exemplo, será que não estaria me prejudicando mais do que se me mantivesse incorruptível e sem emprego. Gostaria de acreditar que sim, e no fundo acredito, mas me sinto compelida, até mesmo pelas responsabilidades familiares a agir de maneira diferente, e isso me consome enquanto ser humano. Me consome também o fato de que quanto uma pessoa age corretamente, de acordo com uma ética, quase sempre perde, do ponto de vista sócio-econômico, ou é considerada tola, e isso me entristece, porém não me derruba e não modifica meus valores.
Portanto, quando me lembro do pé de caximbo, e com "x" porque até pouco tempo eu realmente não sabia como escrever e não me envergonho disso, eu me animo e me renovo porque acredito que devo me manter aberta, pura, pronta para sentir o que tiver que sentir e viver o que tiver que viver, não acredito que me proteger signifique desconfiar, e sim saber como lidar com o que vier, desde que seja sincera, sem agressividade e sem rancor com o que de mal possa surgir. Se eu consigo agir assim já é outra história...